Capa de A Night At The Opera

As curiosidades do álbum ‘A Night At The Opera’

Antes do lançamento de seu novo álbum o Queen vivia um verdadeiro paradoxo. Quanto mais sucesso faziam, menos dinheiro eles tinham e mais pareciam estar próximos do fim. Eles haviam acabado de lançar seu single de maior sucesso até o momento “Killer Queen” e estavam tocando em lugares maiores, para plateias maiores. Embora a imagem que eles cultivassem pudesse supor que eles andavam por aí vivendo em mansões e dirigindo Rolls Royces todos moravam de aluguel e recebiam um salário semanal de cerca de 60 libras, a verdade é que a banda se encontrava a beira da falência.

Eles estavam presos a um contrato leonino, que os obrigava por exemplo, a reembolsar seus empresários pelo dinheiro investido na banda, antes da partilha de eventuais lucros. Quando Sheer Heart Attack começou a fazer sucesso eles foram cobrar seus representantes e ouviram que na verdade eles deviam mais de 200.000,00 libras para os irmãos Sheffield (ver Death on Two Legs), donos dos estúdios Trident a quem o Queen tinha contrato. A única maneira de seguir em frente seria romper com os antigos empresários e tomar as rédeas de sua carreira. Para isso entraram em contato com Bob Mercer, um caçador de talentos da EMI que os indicou o advogado Jim Beach, do escritório de advocacia Harbottle & Lewis que começou a procurar alguma forma de romper o contrato que tinham.

Durante a turnê americana para divulgar “Sheer Heart Attack” a banda entrou em contato com Don Arden (empresário do Black Sabbath) e que era conhecido no meio musical como o “Al Capone do Rock” e ele teria conseguido liberar a banda do seu contrato em uma reunião com os irmãos Sheffield. O Queen então assinou uma procuração autorizando Arden a agir em nome de seus interesses. Em algum ponto ambas as partes mudaram de ideia. John Anthony ( um dos produtores no 1º álbum) implorou para que eles não assinassem nada com Arden”. Segundo a banda o acordo foi invalidado de comum acordo com o empresário, embora sua reputação não sugerisse esse comportamento.

Chegaram a entrar em contato com Peter Grant que empresariava o Led Zeppelin e o Bad Company, mas um possível conflito de interesses acabou impedindo um acordo.

Analisando todas as opções acabaram escolhendo John Reid que empresariava Elton John. Ainda faltava solucionar o problema com os irmãos Sheffield e conseguiram fechar um acordo em agosto de 1975 que os livrava de todos os acordos anteriormente estabelecidos. Os direitos de publicação do Queen passavam às mãos da EMI. Em contrapartida o Trident recebeu uma indenização de cem mil libras pelo rompimento dos contratos, pagos através de um adiantamento oferecido pela EMI. O Trident ainda reteve o direito a um por cento dos royalties dos próximos seis álbuns do Queen.

O Queen com seu novo empresário John Reid
O Queen com seu novo empresário John Reid

Livres dos irmãos Sheffield, a banda agora entrava no estúdio para gravar seu próximo álbum. Utilizando-se de diversos estúdios, entre eles o Sarm East e o Rockfield para gravar as faixas básicas das canções, enquanto os vocais eram gravados no Scorpio e os overdubs eram feitos no Olimpic Studios. A banda também tinha uma forma muito peculiar de compor. Geralmente cada um dos integrantes compunha sozinho, antes de trazer suas ideias ao conhecimento dos outros, para receber sugestões, aperfeiçoamentos ou mesmo a rejeição, às vezes até trabalhavam em estúdios diferentes. Num segundo momento os outros iam adicionando suas partes, mas de forma geral aquele que trazia a ideia inicial ditava como a música seria. A desvantagem nas palavras de Brian é que eles acabavam perdendo um pouco o espírito de grupo.

O Queen gravando "A Night"
O Queen gravando “A Night”

A exemplo dos álbuns anteriores a banda se auto produziu com co-produção de Roy Thomas Baker. O lançamento ocorreu em 21 de novembro de 1975, estima-se que seu custo de produção alcançou a soma de 40.000 libras, o que gerou rumores de que este seria o álbum mais caro a ter sido gravado até então.

A capa foi desenhada pelo próprio Freddie Mercury, inspirada no brasão de armas britânico acrescentando uma representação dos signos dos integrantes, o desenho utilizado no álbum é uma variação do brasão que apareceu primeiramente no encarte de Sheer Heart Attack. Os leões representando Roger Taylor e John Deacon, o caranguejo representando Brian May (signo de câncer) e os anjos representando Freddie Mercury do signo de Virgem. A Phoenix representa o renascimento das cinzas, simbolizando seu renascimento a partir de suas bandas anteriores como o Smile de Brian e Roger e o Sour Milk Sea de Mercury.

Capa de A Night At The Opera
Capa de A Night At The Opera

Uma Noite Na Ópera

Após um dia estressante de trabalho o produtor Roy Thomas Baker sugeriu que tivessem uma noite de folga e convidou a todos a irem à casa que ele havia alugado nas proximidades do estúdio. Roy havia adquirido uma das novidades da época, um videocassete. Então assistiram ao filme “A Night At The Opera” (1935) dos irmãos Groucho, Chico e Harpo Marx. O título era perfeito para o que estavam fazendo. No álbum seguinte o Queen também utilizou um título dos irmãos Marx “A Day At The Races”. Groucho Marx enviou um telegrama agradecendo a banda por utilizar o nome de seus filmes .Em 1977 depois de agendarem duas apresentações no The Forum, em Los Angeles, Freddie, Brian e Roger arranjaram um tempo entre as apresentações para visitar Groucho Marx (Deacon não foi ao encontro), presenteando-o com os discos de ouro recebidos pelas vendas de A Night at the Opera e A Day at the Races. Na ocasião Groucho tinha uma pianista que tocou uma música para a banda. Na sequência Marx pediu que a banda tocasse uma música e então tocaram 39.

Poster do filme "A Night At The Opera"
Poster do filme “A Night At The Opera”

Na época a banda se preparava para lançar seu próximo álbum (News Of The World), diz a lenda que o Queen usaria novamente o título de um dos filmes dos irmãos Marx, “Duck Soup”. Groucho Marx teria rejeitado a solicitação do grupo, enviando uma mensagem a EMI (gravadora) pedindo que utilizassem o nome do seu novo filme “The Rolling Stones – Greatest Hits”.

Groucho Marx morreria cinco meses depois do encontro, aos 86 anos vítima de uma pneumonia.

Norman e Barry Sheffield
Norman e Barry Sheffield

Depois de gravarem seus primeiros álbuns, a relação com os irmãos Sheffield e Jack Nelson (empresário da banda, indicado pelos irmãos Sheffield) estava ficando insustentável. Na canção “Flick Of The Wrist” do álbum Sheer Heart Attack, Freddie mostra toda sua insatisfação com a situação da banda, colocando-se como uma prostituta explorada por um cafetão. A situação só piorou quando eles começaram a ver os dirigentes da Trident andando em Rolls Royces, enquanto os pedidos que faziam eram negados, o que levou a banda a procurar uma saída para romperem o contrato. Seguindo-se a uma batalha judicial que culminaria com a quebra de contrato e a “homenagem de Freddie em “Death On Two Legs”.

Em uma entrevista para John Ingham da revista Sounds Mercury resumiu seu sentimento em relação à canção:

“Eu quis fazer o vocal, o mais grosseiro possível. Minha garganta sangrava o tempo todo. Eu mudava a letra para deixá-la cada vez mais perversa. Quando os outros a ouviram pela primeira vez eles ficaram em choque, apavorados. Eu estava completamente entregue a ela. Eu fui um demônio por alguns dias”.

Em sua autobiografia lançada em 2013 intitulada “Life On Two Legs: Set The Record Straight’ by Norman J. Sheffield”, Norman Sheffield conta sua versão do problema com a banda:

“Quanto mais bem sucedidos se tornavam, mais agitado o Queen ficava em relação ao dinheiro. A coisa esquentou quando John se casou. No período que antecedeu o casamento, ele anunciou que queria que eu adiantasse £ 10.000 (cerca de £ 90.000 em valores de 2013) para ele comprar uma casa. Eu não reagi muito bem.

Então Freddie exigiu um piano de cauda. Quando eu neguei o pedido, ele bateu com o punho na minha mesa. “Eu tenho que ter um piano de cauda”, disse ele.

Eu não estava sendo malvado. Nós sabíamos que havia uma enorme quantia de dinheiro chegando devido ao sucesso do Queen. Expliquei que algumas delas já estavam chegando, mas a grande maioria ainda não havia chegado.

“Mas somos estrelas. Estamos vendendo milhões de discos “, disse Freddie.

“Eu ainda estou morando no mesmo apartamento em que estive nos últimos três anos.”

A quantidade de dinheiro que investimos na banda foi enorme.

Nós adiantamos equipamentos e salários logo no início e continuamos a despejar dinheiro neles por quatro anos. Freddie não parecia notar o fato da banda dever a Trident perto de £ 200,000 (£ 1,75 milhão em 2013).

Eu me lembro da conversa.

“O dinheiro virá em dezembro”, eu disse. ‘Então espere.’

Então veio uma frase que ele tornaria famosa em todo o mundo nos próximos anos, embora ninguém soubesse de onde veio.

Freddie bateu os pés e levantou a voz: “Não, não estou preparado para esperar mais. Eu quero tudo. E eu quero agora.’

No final de 1975, eu fiquei sabendo que eles estavam fazendo todo tipo de comentários depreciativos sobre o Trident.

Então eu ouvi uma faixa de A Night At The Opera chamada Death On Two Legs. As duas primeiras linhas resumiam o que estava por vir.

“Você chupa meu sangue como uma sanguessuga / você infringe a lei e a viola”, então, “Você se sente como um suicida?”, Continuou, “Eu acho que deveria”. Era uma desagradável mensagem de ódio de Freddie para mim.

Logo Bohemian Rhapsody chegou ao topo das paradas do Reino Unido e ficou lá por nove semanas. Um momento agridoce surgiu quando começaram a vazar notícias de que havíamos nos separado do Queen.

Nós deveríamos ter conversado mais. E eu deveria estar mais atento aos sentimentos deles. Quando percebi que as coisas estavam muito erradas, já era tarde demais.

Em março de 1977, a empresa estabeleceu com a banda a venda de todos os seus direitos futuros, os direitos dos álbuns antigos e a liquidação da dívida gerencial.

O sonho de Freddie finalmente se tornou realidade e ele se tornou um homem muito rico. Quando ele morreu, ninguém estava mais triste que eu. Ele pode ter sido um monstro para lidar, mas ele também era um gênio.

Eu o vi uma vez, nos anos seguintes, em 1986, quando levei minha família para o show deles em Knebworth. Ele foi amigável, como se os problemas do passado ficassem para trás. Acabou sendo seu último show ao vivo, o que significa que eu estava no primeiro e no último show deles.

Anos depois, após sua morte, fui ao Freddie Mercury Memorial Concert em Wembley, onde vi os três membros restantes sendo fotografados.

John Deacon apontou para mim e disse: “E se não fosse por esse homem, não estaríamos aqui”.

Brian e Roger olharam para mim e assentiram. Esse gesto foi um longo caminho para exorcizar os fantasmas do passado.”

Lazing on a Sunday Afternoon

A letra narra a semana de um homem. Canção influenciada pelo Vaudeville que Freddie trouxe à banda. Contém um efeito aplicado aos vocais obtido de maneira curiosa. Na época nem se pensava em efeitos digitais. Você precisava de criatividade para reproduzir certos sons. Aqui os vocais eram gravados normalmente e depois reproduzidos em um alto falante dentro de um balde metálico com um microfone captando o som reproduzido, resultando em um efeito parecido com um megafone.

I’m In Love With My Car

Composta por Roger Taylor em homenagem a Johnathan Harris, roadie do Smile. Com o passar do tempo ele se tornou uma espécie de “faz tudo”, de empresário itinerante, técnico de som a motorista. Brian May se referia a ele como um quinto integrante do Queen, sendo extremamente dedicado a eles. Era tão importante para a banda que o primeiro atrito que tiveram com o Trident Studios começou porque eles queriam que Harris fosse incluído na lista de pagamentos do estúdio. O que foi recusado pelos irmãos Sheffield que obrigaram a banda a tirar do próprio bolso o pagamento do técnico de som.

Roger o descreve como um cara que não tinha namorada, não comia muito e nem se interessava por festas e pela maioria das coisas normais da vida, exceto pela sua paixão por carros. Especialmente sua paixão por seu Triumph TR4 que costumava lavar e polir obsessivamente.

Triumph TR4
Triumph TR4

Seguiu com a banda até o final da turnê de “News Of The World” quando se retirou ao ficar doente, retornou a sua antiga função durante a turnê “Crazy”, sendo novamente obrigado a abandonar a banda, desta vez em definitivo, por conta de sua doença. A banda ofereceu a Harris o cargo de gerente do Mountain Studios mas ele recusou a oferta. Segundo Brian, Harris foi acometido por uma doença misteriosa que paralisou o seu corpo.

Os sons de carro que aparecem na faixa foram gravados do Alfa Romeo que Roger tinha na época.

A canção também foi motivo para discussão entre os integrantes. Roger queria que ela fosse lançada como lado B do single de Bohemian Rhapsody com a recusa chegou a se trancar em um armário ameaçando não sair, caso seu pedido não fosse atendido. A banda acabou cedendo e como os royalties referentes ao single eram divididos em 50%, Roger acabou se dando bem devido ao sucesso do single.

You’re My Best Friend

Canção de John Deacon em homenagem a sua esposa Veronica Tetzlaff. Os dois se conheceram em uma festa na faculdade Maria Assumpta, onde Veronica estudava. Após três anos de namoro resolveram se casar. Veronica estava no segundo mês de gravidez de Robert, primeiro filho do casal.

Uma das capas do compacto de "You're My Best Friend"
Uma das capas do compacto de “You’re My Best Friend”

Essa é só a segunda composição de John Deacon, que era o único membro que não compunha nos dois primeiros álbuns. Incentivado por Freddie Mercury, ele começou a escrever suas primeiras canções, sendo “Misfire” em Sheer Heart Attack sua primeira contribuição. Acabou se tornando o responsável por alguns dos maiores sucessos da banda com músicas como “I Want to Break Free” e “Another One Bites The Dust”.

A faixa apresenta Deacon tocando um piano elétrico porque Freddie não gostava da sonoridade dele comparada ao piano acústico. Deacon levou o instrumento para casa e trouxe a canção pronta para o estúdio.

’39

39 é uma música sobre um homem que parte em uma viagem espacial em busca de novos mundos e experiências. Ao retornar à Terra ele acha que se passou 1 ano mas na verdade se passaram 100.

De acordo com a Teoria da Relatividade Restrita de Albert Einstein, se pegarmos dois relógios sincronizados e funcionando perfeitamente, o tempo avança mais lentamente em um relógio em movimento do que em um relógio em repouso. De modo mais objetivo podemos usar como exemplo o paradoxo dos gêmeos. Einstein sugere que se enviarmos um dos gêmeos para o espaço a uma velocidade próxima da velocidade da luz quando este retornasse à Terra estaria mais novo que o seu irmão que ficou na Terra, devido à dilatação do tempo.

A banda tocando 39 ao vivo
A banda tocando 39 ao vivo

A física deu a ideia para Brian escrever a canção, mas ela foca mais no drama do personagem ao encontrar o mundo completamente diferente do que esperava. Outra inspiração para a letra veio de “O Poeta” uma história do romancista alemão Herman Hesse, onde um homem deixa sua cidade natal e ao retornar sente que a cidade e o modo de vida das pessoas está muito diferente de quando a deixou. Pode ser vista também como uma metáfora para a vida dos músicos de modo geral que passam muito tempo na estrada e quando voltam para casa encontram um mundo muito diferente daquele vivido nas turnês.

Embora Brian tenha gravado os vocais no álbum, nas apresentações ao vivo a banda toda se juntava na frente do palco para executar a canção com Freddie nos vocais.

Sweet Lady

Ao contrário das outras canções do álbum que contêm influências de outro estilos musicais, Sweet Lady é um hard rock com a assinatura de Brian com destaque para o andamento de valsa em 3/4 .

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Seaside Rendezvous

Mais uma canção influenciada pelo Vaudeville, o Music Hall, e o Burlesco. Music hall é uma forma de entretenimento teatral de origem britânica, muito popular entre 1850 e 1960, e definido como uma mescla de música popular, circo de horror, comédia e participações especiais, também associado aos teatros onde ocorriam as apresentações, assim como à música comum nestes espetáculos (chamada de música de cabaré). Uma série de números era levada ao palco, sem nenhuma relação direta entre eles. Entre outros, músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarinas ou dançarinos, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmetes.

Cartaz de um espetáculo de Vaudeville
Cartaz de um espetáculo de Vaudeville

O music hall britânico é similar ao Vaudeville nos Estados Unidos embora o termo “vaudeville”, no Reino Unido, compreenda outras variedades de entretenimento, do gênero mais conhecido como burlesco. No Brasil seria o equivalente ao Teatro de Revista.

A canção composta por Freddie Mercury se destaca pelos arranjos vocais executados por Freddie e Roger imitando instrumentos de sopro como trompetes, clarinetes e até um kazoo e a percussão simulando a arte do sapateado com os dois usando dedais batendo em uma mesa para conseguir o efeito.

The Prophet’s Song

Originalmente chamada de People Of The Earth é considerada por muitos como uma resposta de Brian a Bohemian Rhapsody.

Ela começa com um vento que na verdade era só um microfone com um phaser captando o som do ar condicionado do estúdio seguido por uma introdução tocada com um Koto de brinquedo (Koto é um instrumento de cordas japonês) que Brian ganhou na visita da banda ao Japão na turnê de Sheer Heart Attack.

A guitarra teve a sexta corda estava afinada em D (Ré) ao invés de E (Mi) para dar um tom sombrio à faixa.

A banda no palco durante a turnê de "A Night At The Opera"
A banda no palco durante a turnê de “A Night At The Opera”

A letra foi inspirada em um sonho que Brian teve sobre um profeta dizendo várias coisas como “Oh, people of the earth”, junto com a melodia da canção. O tema gira em torno de um profeta alertando as pessoas sobre uma grande tragédia que se aproximava, misturando ficção científica e temas bíblicos que remetem ao Apocalipse e ao Dilúvio .

Sobre os arranjos vocais o destaque fica para a sessão a Capella com os atrasos e repetições dos corais utilizando a técnica conhecida como cânone, onde um trecho é cantado e repetido por um eco, enquanto se canta outra melodia em cima da repetição, criando diferentes harmonias quando esses sons se encontram. Um conceito que Brian já havia experimentado com a guitarra em “Brigthon Rock”. Em “Prophets” foram criadas harmonias em três partes, uma no centro (a que toca nos dois alto falantes), seguida de uma repetição no canal esquerdo e uma no direito, com os vocais de Freddie harmonizando com si mesmo. Para conseguir o efeito desejado, ao invés da fita passar do cabeçote de gravação para a outra bobina, a fita ia para outra máquina onde passava por outro cabeçote obrigando-os a usarem cadeiras, cabides e outros objetos como suporte para a fita chegar até o cabeçote da outra máquina.

Love Of My Life

Aqui temos uma balada escrita por Freddie Mercury para Mary Austin, a namorada com quem viveu por seis anos e que o acompanhou pelo resto de sua vida mesmo depois que se separaram.

Freddie e Mary Austin
Freddie e Mary Austin

No estúdio a canção possui um arranjo mais sofisticado, incluindo até uma harpa que Freddie convenceu Brian a tocar. A gravação da harpa tornou-se um verdadeiro martírio já que ela desafinava com qualquer variação de temperatura. Bastava alguém abrir uma porta no estúdio que todo o trabalho era perdido.

Nas apresentações ao vivo a banda optou por um arranjo simplificado com violão e vocais que acabou se tornando mais popular que a versão de estúdio, principalmente na América do Sul por conta da participação da plateia.

Good Company

Good Company narra a história de um pai aconselhando o filho a manter as boas amizades. O filho se casa e acaba se esquecendo dos bons amigos que tinha antes de se casar. Quando o casamento acaba ele se vê sozinho porque não cultivou essas amizades.

Harold, Ruth e o pequeno Brian
Harold, Ruth e o pequeno Brian

A relação entre pai e filho e a família era um tema recorrente nas canções de Brian. Canções como “Father To Son” e mais tarde “Leaving Home Ain’t Easy” são exemplos disso. Filho de Harold May e Ruth May. Harold era um engenheiro eletrônico, atuando na Segunda Guerra como operador de rádio e navegador em aviões como os Beaufighters e Mosquitos (De Havilland DH 98) na Força Aérea Real (RAF) e sua mãe era assistente dentária na WRAF. Os dois se casaram e logo tiveram um filho. Harold era apaixonado por música, tocava piano e banjo aprendendo tudo de ouvido. Passou seu conhecimento musical para o filho, ensinando o pequeno Brian a tocar algumas músicas de George Formby no ukelele. Em seguida, Brian passou a receber aulas de piano e embora não gostasse muito reconheceu que elas foram muito úteis para sua formação.

George Formby
George Formby

Aos sete ganhou um violão que depois plugou em um pequeno amplificador feito em casa. O próximo passo era comprar uma guitarra, mas as condições financeiras da família não permitiam a aquisição do instrumento e aos 16 ele resolveu construí-la com a ajuda do pai. Depois de dois anos construíram a Red Special, o icônico instrumento, feito à mão, usando todo tipo de material que estivesse disponível. Instrumento que indiretamente separaria o pai de seu filho.

Brian com a Red Special
Brian com a Red Special

Brian se preparava em Tenerife para concluir seu doutorado em astronomia quando teve que escolher entre a carreira de músico ou de astrônomo. Seu pai ficou arrasado quando ele escolheu a carreira musical. Harold achou que seu filho estava jogando a vida fora ao optar pelas incertezas da vida de músico ao invés da promissora carreira de astrônomo. Brian não teve dúvidas de ter feito a escolha certa quando o Queen excursionou com o Mott The Hopple nos Estados Unidos.

Brian em Santa Cruz de Tenerife nas Ilhas Canárias
Brian em Santa Cruz de Tenerife nas Ilhas Canárias

Conservador, Harold também não viu com bons olhos o fato do filho viver com uma mulher com quem não tinha se casado já que Brian estava morando com Crissie (que mais tarde viria a ser sua primeira esposa) na época e os dois acabaram ficando sem se falar por quase dois anos, a briga entre pai e filho se refletiu na saúde de sua mãe Ruth que teve um colapso nervoso tentando fazer os dois acertarem suas diferenças. Só quando o Queen tocou no Madison Square Garden, em Nova York, em 1977 que os dois fizeram as pazes. Brian trouxe os pais de Londres em um Concorde (da qual Harold havia trabalhado no projeto do sistema de pouso) e os deixou em um hotel, depois do show o pai cumprimentou o filho e disse, “Ok meu filho, agora eu entendo”.

Brian e seus pais nos bastidores do show no Madison Square Garden em 1977
Brian e seus pais nos bastidores do show no Madison Square Garden em 1977

Mais tarde Harold confessou o motivo de ter desaprovado a escolha do filho, “Quando saí da RAF eu gostaria de ter me juntado a uma banda, mas tivemos você e precisávamos de um emprego estável para criá-lo”.

Em Good Company, Brian canta e toca ukelele. O destaque fica para o solo de guitarra onde Brian grava seus overdubs utilizando o amplificador Deacy (criado pelo baixista John Deacon) imitando instrumentos de sopro típicos da bandas de Jazz de New Orleans do começo do século 20.

Bohemian Rhapsody

Quando Freddie apresentou “Bohemian Rhapsody” a seus companheiros de banda, eles não tinham ideia do que esperar. No começo se tratavam de três canções inacabadas que ele juntou em uma única canção. Freddie anotava as suas ideias em um caderno que seu pai, Bomi Bulsara, usava em seu trabalho como contabilista. Ele parecia ter a coisa toda montada e funcionando dentro de sua cabeça, porque não era uma notação musical comum”, declarou Brian na época.

Para a gravação, o Queen dispunha apenas de vinte e quatro canais analógicos de gravação. Para complicar ainda mais, era preciso que eles gravassem primeiro os vocais de fundo, para que depois fosse gravado o vocal principal. Segundo Roy Thomas Baker, aquele não era o procedimento normal “Mas nós não teríamos canais suficientes para gravar os requintados vocais de fundo se as coisas não fossem feitas assim.” O processo tornou-se ainda mais complexo quando Freddie começou a acrescentar mais e mais ‘Galileos’.

Capa do single de "Bohemian Rhapsody"
Capa do single de “Bohemian Rhapsody”

“A cada vez que Freddie acrescentava um ‘Galileo’, eu emendava mais um pedaço de fita ao rolo”, declarou Baker. À medida que isso acontecia, as incontáveis voltas adicionais de fita faziam com que o rolo se assemelhasse a “uma zebra, galopando a toda velocidade”.

Após ser tocada inúmeras vezes, a fita perdia gradualmente seu registro, e a gravação parecia tornar-se cada vez mais inaudível. Os acontecimentos a seguir passariam para a mitologia do Queen. “A fita original já havia se tornado fina. As pessoas acham que esta é mais uma história lendária, mas se você segurasse a fita contra a luz poderia enxergar através dela. A cada vez que a fita passava sobre os cabeçotes, perdia mais um pouco de sua camada de óxido”, declarou Brian.

O Queen queria que a faixa fosse lançada como single, o que foi negado pela gravadora, alegando que a canção era muito longa. Sugeriram que eles editassem a gravação, para se encaixar no padrão da época em que os singles tinham cerca de três minutos e meio, o que foi prontamente negado. Diante das negativas da EMI resolveram mudar de estratégia e arrumar um meio de fazer valer sua vontade. Roy Thomas Baker convidou o Dj da Capital FM, Kenny Everett para que fosse ao estúdio Scorpio, ouvir a canção e emitir sua opinião. Everett ficou tão impressionado que teria dito a banda que aquele era um sucesso garantido. Ele recebeu uma cópia com a promessa de que ele não tocasse a gravação em seu programa de rádio. No dia seguinte, Everett tocou alguns segundos de “Bohemian Rhapsody” no ar, alegando que não lhe era permitido tocar mais do que aquilo. Após haver tocado mais alguns trechos curtos, Everett finalmente deixou a canção tocar na íntegra por catorze vezes ao longo de um fim de semana. Na segunda, milhares de fãs se amontoavam nas lojas atrás do single, sendo avisados que ele ainda não havia sido lançado. A grande procura acabou forçando a EMI a lançar o single de “Bohemian” na íntegra em 31 de outubro.

Kenny Everett
Kenny Everett

Saindo em turnê no Reino Unido entre 14 de novembro e 24 de dezembro o Queen se deu conta das dificuldades de executar a parte operística ao vivo. A banda até tentou executá-la mas os ensaios não eram satisfatórios, o que acabou fazendo com que omitissem o trecho nas primeiras apresentações até que decidissem colocar a gravação e abandonar o palco durante o trecho operístico.

Continuando a promover o single a banda entrou em contato com o diretor Bruce Gowers, com quem haviam trabalhado no show do Rainbow Theatre para que gravassem um filme promocional, a ser apresentado no Top of the Pops. A ideia para o vídeo era dar vida à foto da capa do álbum Queen II. Criada pelo fotógrafo Mick Rock, baseada em uma foto da atriz Marlene Dietrich.

O clipe de Bohemian
O clipe de Bohemian

Em meio a todos os “Scaramouches”, os “bismillahs” e os “Galileos”, uma pergunta permanece sem resposta: sobre o que falava “Bohemian Rhapsody”? Evasivo como de hábito, Mercury insistiu que “as pessoas devem simplesmente ouvi-la, pensar sobre ela e, então, decidirem o que ela significa”. Taylor afirmou: “É óbvio sobre o que a canção trata.” May tinha sua própria opinião a respeito disso: “Não creio que jamais venhamos a saber sobre o que se trata e mesmo que eu soubesse, é provável que jamais lhes dissesse. Mas a qualidade principal de uma grande canção é que você pode relacioná-la às suas próprias experiências pessoais e a sua própria vida. Creio que Freddie possa estar lidando com problemas em sua vida pessoal e tenha decidido expressar-se através da música. Mas não creio que, a esta altura dos acontecimentos, esta fosse a melhor coisa a ser feita; então, ele deve haver decidido deixar isso para mais tarde. Acho que é melhor deixar isso como um grande ponto de interrogação, no ar.” De fato, pelo final de 1975, mudanças significativas estavam tendo lugar na vida pessoal de Mercury; mas ele não pretendia torná-las de conhecimento público. Atendo-se somente a letra ela fala de uma pessoa desiludida com a vida. Que se questiona sobre o que é real. Ele passa a se lamentar e se despedir de sua mãe dando a entender que se suicidaria. Segue-se então a parte operística onde o sujeito reafirma sua posição e sua mãe tenta convencê-lo do contrário. Com a alternância entre o sujeito explicando seus motivos para tirar sua vida (Eu sou um pobre garoto, ninguém me ama) e um terceiro sujeito não identificado incentivado o sujeito a seguir com seu plano (Ele é só um pobre garoto, deixe-o partir) e a mãe pedindo a Deus (Bismillah ou em nome de Deus) para que não o deixe partir.

Na parte mais pesada a mãe que considera a decisão do filho uma agressão a ela (Então você acha que pode atirar pedras e cuspir em meus olhos) e que vai abandoná-la para morrer (Então você acha que pode me amar e me deixar para morrer/Você não pode fazer isso comigo) seguida pela última parte mais lenta onde o sujeito decide então viver e seguir para onde o vento o levar.

God Save The Queen

Aqui Brian faz sua versão do hino britânico fazendo uso de overdubs para gravar suas orquestras de guitarras. Acabou se tornando a faixa de encerramento das apresentações do Queen a partir de então.

 

Fonte: https://whiplash.net

 

Alexandre Portela

Fã do Queen desde 1991. Amante, fascinado pela banda e seus integrantes. Principalmente Freddie! =)

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