A Maior Banda/Artista de Rock do Mundo? Depende da época! Você concorda?

Por Jean Carlo B. Santi

Antes de registrar o texto, confesso que fiquei pensativo sobre o porquê de me aventurar a escrever sobre um tema como “maiores ou melhores”. É sempre polêmico, e se houvessem mil pessoas debatendo sobre, dificilmente haveriam ao menos duas listas idênticas. Sem falar nos haters… Ahh, os haters… Estes fazem toda opinião contrária à sua própria parecer uma afronta a dignidade humana. Seguimos adiante, para não cometer o mesmo pecado. O fato é que nunca dei muita bola para estas listas melhores disso, maiores daquilo, muito embora quase sempre clico na matéria para dar aquela conferida, e como todo mundo, sempre acabo discordando de alguma coisa. Mas certa feita, me veio à cabeça uma curiosidade: dentre tantas lendárias, icônicas e antológicas bandas de rock, seria possível, de forma imparcial, apontar uma banda como a maior do mundo? E lá fui eu, surfar nesta conjectura, e gastar algumas pestanas divagando sobre esta questão. Para quem já acumulou algumas décadas de rock como eu, e ainda, como ávido consumidor da história do rock, seria quase óbvio, ao pensar em uma única banda, que esta seria The Beatles. Mas não sejamos assim, tão premeditados. Coloquemos uma pimenta nisso, ou seja, vamos nos ater a alguns critérios. Primeiro, vamos avaliar a relevância histórica, ou seja, o que a banda representou em seu apogeu, e se, ainda nos dias atuais, a banda continua relevante. Segundo critério: atração do público, ou seja, capacidade de vender discos e de lotar shows. Terceiro, a influência que a banda gerou para artistas contemporâneos e futuros e, ainda, o impacto que a banda causou na história da música, e em especial, do rock. E se, apesar de todos os critérios acima citados, os Beatles ainda não sair da sua cabeça, adicionemos então um contexto temporal: a banda precisa estar na ativa durante o período a ser avaliado. Assim, o exercício proposto seria o de elencar qual foi maior banda do mundo, desde o ano de nascimento do rock na década de 50 até os dias atuais. Pensando assim, se me perguntarem novamente: “qual a maior banda ou artista de rock do mundo?”, já poderei responder de pronto: depende da época!

1955 / 1963 – Elvis Presley

Muitos hão de reclamar: “mas e Bill Halley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard, etc”? Não restam dúvidas da grande importância de todos estes, mas o fato é que o primeiro astro em âmbito mundial da história do rock foi Mister Presley. Foi este senhor, ao qual se nega acreditar que tenha morrido, que levou o gênero rock para os quatro cantos do planeta. Não obstante, é praticamente impossível não citar um grande artista surgido na década de 60 e 70 (tida por muitos como a era de ouro do rock) que não tenha sido influenciado por Elvis. Com uma voz grave, marcante e potente, cuja tonalidade só se acreditava ser possível aos grandes cantores negros da época, e performances inesquecíveis com direito a sua quase patenteada dança frenética, ensinou ao mundo do rock o conceito de frontman performático, um verdadeiro showman. Décadas depois da sua morte (ou não…), esta fera ainda continua batendo recordes e mais recordes de vendagens de todo tipo de material, de discos a suvenires. Elvis é o cara! (será mesmo que ele morreu?)

1963 / 1970 – The Beatles

Achou que eles não iriam aparecer? Sem chance! Em 1962, os Beatles já estavam entrando em erupção, mas a partir de 1963, e até o encerramento oficial da banda, em 1970, ainda que nomes como Elvis Presley, Jimi Hendrix e Rolling Stones também figurassem como grandes astros do rock, definitivamente, não tinha pra ninguém. Os Beatles se tornaram praticamente um sinônimo da palavra rock, foram pioneiros em muitas outras vertentes como o hard rock, o progressivo/psicodélico, e fonte de inspiração para muitos outros gêneros. Eles foram responsáveis diretos pela popularização das bandas, em uma época que o sucesso era inerente à artistas solos. Falar de influência é chover no molhado, pois não só influenciaram artistas contemporâneos seus, como boa parte dos músicos que surgiriam depois e até os dias de hoje, independentemente do estilo musical (já imaginou estudar qualquer instrumento musical e não aprender nada dos Beatles?). Vendagem de discos então, é covardia. São recordistas absolutos no gênero. Ainda não surgiu um fenômeno igual, e dificilmente surgirá alguma outra banda que venha atingir o mesmo patamar de sucesso, e de forma tão duradoura.

1970 / 1980 – Led Zeppelin

Esses caras já nasceram gigantes. O sucesso foi estrondoso já a partir do primeiro álbum. E, tal qual os Beatles, só perderam o posto de maior banda do mundo após o encerramento de suas atividades. Tinha tudo ali: músicos extremamente competentes, o carisma e sex appeal do hoje vovô Plant, a mística por trás da temática que envolvia a banda, enfim, todos os ingredientes necessários para a criação de um mito. Infelizmente, até o trágico motivo pelo encerramento da banda, de certa forma também contribuiu para isso. Desejo de toda grande banda inglesa, para serem considerados astros a nível mundial seria imprescindível conquistar a América. Isso foi fácil, pois lá, eles são venerados até hoje de uma forma absurda. Condição conquistada mais que merecida. Se considerarmos a base do rock atual como um terreno, o solo seria os grandes artistas da década de 50 e 60, e teríamos dois troncos, sendo um o Black Sabbath, como maior expoente influenciador de toda ramificação da música mais pesada, como o Thrash, o Heavy, o Death e demais correlatos, e em outro tronco, o Led Zeppelin, florescendo o que viria depois em termos de hard rock, pop rock, alternativo, psicodélico, entre outros. E olha que, em se tratando de década de 70, a concorrência era pesada. Além do grande Sabbath fazendo sombra, figurava também nada menos que um “grupinho” chamado Pink Floyd. Por essas e por outras, o Led não é só uma banda, é uma lenda do rock.

1980 / 1988 – Queen

Tudo bem que esta inglesa, ao contrário de seus conterrâneos anteriores, não teve o reconhecimento imediato da América. Este viria somente anos mais tarde, após a morte de Freddie Mercury. Mas e daí? Não se pode negar a influência dos americanos em todo mundo no que tange a cultura de consumo da música, mas se o Queen não era essa potência toda nos States, pode ter certeza que no resto do planeta, não havia outra banda mais expressiva. Freddie era um verdadeiro encantador de serpentes (sem maldade, pessoal!), tinha a plateia nas mãos como nenhum outro e foram responsáveis por alguns dos shows mais épicos de toda a rica história do rock (não era por acaso que o Queen abarrotava estádios mundo afora). Dez de dez listas sobre os maiores frontman da história sempre configuram Freddie em primeiro lugar. Brian May é um dos guitarristas mais respeitados e admirados ainda hoje. A cozinha baixo/bateria era sublime. Todos eles eram extravagantes, magistrais, teatrais e tudo o mais que os anos 80 adorava. Isso em um período onde a titânica AC/DC, que já vinha como uma locomotiva desde os anos 70, também andava quebrando tudo, fazendo frente em termos de popularidade.

1988 / 1992 – Guns N’ Roses

Desbancar o Queen ainda em atividade não foi tarefa fácil. Teria que surgir um verdadeiro furacão. E foi isso mesmo que aconteceu. O Guns’n’Roses poderia até parecer como mais uma banda da onda Glam Rock. Mas eles eram diferentes. Eles eram marginais. Sujos. Agressivos. Eles tinham Axl e Slash. O som era distinto de tudo que o hard rock oferecia na época. E eles rapidamente incorporaram toda megalomania que faz com que uma banda de rock seja ainda mais cultuada pela grande massa. O frescor novidadeiro daquela voz, tão estranha quanto impactante, e de um cabeludo usando sua icônica cartola que, enquanto tocava guitarra, não se importava muito com as mensagens das campanhas antitabagismo, somado ao fato de toda essa turma vir diretamente dos becos de Los Angeles, no auge da onda “American Lifestyle”, foi um cenário perfeito para que os Estados Unidos pudessem vender como água no deserto a sua grande banda de rock para todo o mundo. Como tudo aquilo que se torna demasiadamente popular também oferece o risco de causar repulsa na mesma proporção, a figura do Sr. Rose começou também a se desgastar, muito embora, mesmo hoje em dia, um lugar no show do Guns seja disputado a base de tapas.

1992 / 1994 – Nirvana

Neste período houve uma competição acirrada. O Guns ainda estava no auge, com seus Ilusions recém lançados. Mas não teve jeito. Quando surgiu Nevermind, o mundo parou por um momento. Aquilo abalou as estruturas do mundo da música. Muitos medalhões, inclusive o próprio Guns, repensaram seriamente o futuro da música dali por diante. Bandas de todos os subgêneros do rock ficaram intimidadas ao se perguntarem: “Será este o futuro do rock? O que estamos fazendo? Pra onde vamos?”, tamanho o impacto causado na cena. E não estavam errados, afinal, a música jamais seria a mesma depois do Nirvana. Aquele som gutural, desafinado, mas ao mesmo tempo harmônico, despretensioso e soando como banda de garagem, inundou as rádios e televisões do mundo todo. Atrelou-se àquele som até uma nova denominação, o “Grunge”. E mais bandas foram correlacionadas àquele movimento. A identificação com os jovens foi instantânea (lembremos com saudade de uma época em que a juventude repudiava o estilo de ostentação e frugalidade das bandas hard-glam-rock da época, e abraçaram imediatamente a ideia anti-rockstar e a retomada do conceito punk “do it yourself”, tudo isso com uma roupagem toda nova…). Falando em roupagem, até na forma de se vestir, a juventude foi impactada (camisas de flanela venderam aos montes). Ainda que inúmeros projetos “Unplugged” antológicos já houvessem sido realizados por grandes bandas, foi a partir do especial do Nirvana que este tipo de projeto ganhou uma notoriedade e popularidade sem precedentes, fazendo com que inúmeros outros artistas de variados estilos copiassem a “fórmula mágica”. Amando ou odiando, mas nunca ignorando sua existência: O Nirvana sempre será comentado.

1994 / 2006 – Rolling Stones

Neste momento, muita gente caiu da cadeira: “Como assim? Só agora vai reconhecer os Rolling Stones?”. Compreensível. Não seria exagero dizer que os Stones ocupariam junto aos Beatles o posto de maior banda do mundo. Como dito no prólogo deste, não existe unanimidade neste tipo de discussão. Mas o fato é que, se tivéssemos de escolher apenas uma banda por período, teríamos que concordar que o melhor momento dos Stones ocorreu justamente quando os Beatles ainda estavam na ativa. Em analogia, é dizer que o Neymar poderia ser o melhor do mundo, o problema dele foi jogar na mesma época que o Messi… Enfim, ocorre que, pós mortem de Kurt Cobain, houve uma sensação de vazio, o mundo se voltou novamente para o colo dos vovôs. Bateu aquela “vibe” saudosista, de cultuar o passado, e os Stones, já veteranos nesta época, não perderam esta onda – continuaram mandando ver nas lendárias performances ao vivo e ainda lançaram um disco inédito e bem recebido à época. Assim, seguiram lotando turnês e mais turnês, fizeram o maior show de rock a céu aberto da história em pleno Rio de Janeiro (a capital do funk e do samba…), com Keith Richards detonando tudo o que a Colômbia podia produzir e Mick Jagger não “perdoando” nenhuma modelo de belos atributos. Seguindo literalmente o termo “I Can Get no Satisfaction”, esses caras não representavam nenhum papel, eles continuavam vivendo intensamente o conceito sex-drugs-rock’n’roll como se ainda estivessem em plenos anos 60, fazendo com que as pessoas se perguntassem admiradas: “como esses caras ainda continuam vivos e como conseguem continuar tocando?”. Se admirariam ainda mais se soubessem que, mais de uma década depois, eles ainda permanecem incendiando palcos pelo mundo afora com o mesmo entusiasmo e paixão pelo rock. Lendas vivas do rock!

2006 / 2011 – U2

O U2 já era uma banda grande mundialmente ainda na década de 80. E ficou ainda maior na década seguinte. Esta crescente chegou ao pico na metade dos anos 2000, após dois sucessivos álbuns de estrondoso sucesso lançados respectivamente em 2000 e 2004 (feito este muito raro para qualquer banda já “old school” alcançar, em plena era da internet), e turnês atrás de turnês de absoluto sucesso de público e crítica. O U2 tem um grande mérito de ser uma banda essencialmente rock que agrada também aos não roqueiros. E com todo esse apelo, somados a décadas de boa música (discografia impecável), a voz inconfundível de Bono harmonizando em dueto vocal com o talentoso The Edge como poucas duplas no rock, fizeram o U2 ter um dos shows mais desejados desta década. Poucas foram as bandas de rock que tiveram tamanha cobertura e espaço em mídia televisiva, inclusive aqui no Brasil, com a popularesca “Plim Plim”. Outro fato curioso, e talvez segredo de tanto sucesso, é a manutenção do quarteto mais famoso por todos esses anos. Não se ouve nem notícia de brigas internas. Também é interessante pensar em como o som do U2, mesmo ouvindo as músicas mais antigas do grupo, soam atuais nos dias de hoje. É um fato: eles sempre estiveram à frente de seu tempo.

2011 / Dias atuais – Metallica

Esta década, em especial para a música, merece um parágrafo à parte. Primeiro, é importante ressaltar o quanto a internet, agora disponível à mão através dos celulares mais modernos, aliada ao estilo de vida deste novo mundo tecnológico de rotinas ultra aceleradas e que nos obriga a executar múltiplas tarefas, alheio a qualquer tipo de contemplação, meditação ou ostracismo, tem afetado a maneira de consumir música. Álbuns de rock já não são mais tão atrativos. Singles disponibilizados nos muitos canais digitais estão mais em voga. Raros são os que tem paciência de descobrir um novo álbum. Nessa era do imediatismo, as pessoas querem consumir aquilo que lhes parece mais confortável, o que elas já sabem que é bom. Talvez por isso nesta década os grandes artistas do rock sejam todos veteranos, pré-era internet. O próprio rock já não tem mais o apelo de outrora junto a juventude. Então, a banda já precisa vir carregando uma base de fãs construída desde décadas atrás, para que, somada à base de fãs mais jovens conquistados, possam manter o status de gigantes do rock. E é aí que o Metallica tem um grande trunfo: uma capacidade inimaginável de congregar novos fãs, a cada geração que passa. Eles são diferentes em tudo: pra começar, é uma banda pesada, estilo thrash metal (apesar de algumas contradições), que faz igual sucesso com fãs de outros gêneros do rock, menos intensos. Eles não começaram grandes, foram amadurecendo seu som e, álbum após álbum, vieram conquistando notoriedade e respeito no cenário mundial, e mesmo passando por um longo período de turbulência interna e críticas em relação a sua música produzida à essa altura, o magnetismo emanado pelo quarteto parecia cada vez maior, e alheios a toda essa história, a base de fãs pelo mundo afora só aumentava. Que outra banda do estilo thrash lota tantos estádios e vende tão caro seus ingressos atualmente? É fato que outros artistas já citados nesta lista, como o Guns, os Stones e o U2, continuam fazendo turnês de absoluto sucesso nos dias atuais, e ainda outros, como Bon Jovi, Roger Waters, Paul MacCartney, e muitos mais, mas o diferencial do Metallica é que continuam performando ao vivo em alto nível (sejamos sensatos, é claro que nenhum destes artistas já citados estão no melhor nível que já estiveram em seus tempos áureos), e terem lançado nesses últimos anos materiais inéditos de boa qualidade e receptividade junto aos fãs e crítica especializada (apelando novamente para a sensatez, também não há comparação com o melhor material já produzido, mas nesses tempos bicudos para o rock, chega a ser um alento ver artistas já tão veteranos lançando materiais relevantes nos dias de hoje). Sir James Hetfield & Cia, por tudo que representam na vida de milhares de pessoas nesse planeta (difícil explicar a comoção que esta banda emana, e como seus fãs são os mais “chatos” e fanáticos do mundo), carregam com mérito este posto de maior banda da atualidade.

Termina aqui nossa digressão. O que o rock nos reservará daqui por diante, só o tempo dirá. Pode ser que na próxima década estejamos falando de artistas como Imagine Dragons, Coldplay e Twenty One Pilots como as maiores bandas de rock do mundo. Despido de qualquer preconceito, é estranho imaginar isso, pois hoje, elas não soam como rock, pelo menos não na forma como foram forjadas todas as outras bandas anteriormente citadas. Já acreditei um dia que o rock estava próximo da morte. Hoje, entendo que ele nunca vai morrer, vai apenas se transformar. Pode ser que o conceito do que se considera “rock” seja outro. Se esta mudança irá agradar aos ouvidos mais tradicionais, e se o rock ainda será um gênero que inspirará transformação cultural, dedicação e paixão das pessoas que o consomem, isso será uma outra história.

 

Fonte: https://whiplash.net/

 

Alexandre Portela

Fã do Queen desde 1991. Amante, fascinado pela banda e seus integrantes. Principalmente Freddie! =)

Outras notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *